Na baixa da
cidade de Maputo, entre centenas de edifícios em derrocada e prédios
construídos ao toque frenético da maquinaria, existe um maravilhoso cinema Art déco chamado Cinema Scala. Pelo que
sei, foi de muitos donos, tendo passado pelas mãos do estado e depois para
proprietários privados que, com a propagação da televisão pelo país, deixaram
de conseguir mobilizar espectadores para as suas salas. Contudo, há muito tempo
atrás, durante a guerra civil, o Scala foi um lugar cheio de energia que se
enchia de gente ansiosa por conseguir um bilhete para os famosos “filmes
chineses de porrada” e, segundo os trabalhadores, não havia sala dentro do
cinema onde não se propagasse o ruído de vozes e acções. Na sua faustosa
entrada, com o chão de mármore e acabamentos de madeira maciça nas paredes
mestras, ainda hoje se vêem vestígios dessa vida, com inúmeras molduras vazias que
antigamente se destinavam a fixar os cartazes dos filmes, e escadarias deslumbrantes
que dariam eventualmente às antecâmaras da alta sociedade.
Se eu disser que a
sala principal do cinema tem 1000 lugares, e que os assentos continuam a ser os
mesmos, bem como os cinzeiros e a tela, e que no edifício estão contidas
centenas de salas e compartimentos secretos, muitos dos habitantes de Maputo não
acreditariam, mas a verdade é que descrevo tudo tal como agora está, embora
condenado à deterioração. Como no “Shining” de Stanley Kubrick, entra-se no
anfiteatro do Cinema Scala e podem-se sentir as mãos dos fantasmas por que lá
passaram para ver um filme, namorar, fazer grandes negócios às escondidas da
patrulha, ou cultos e rituais. Dizem até que, no topo do cinema, os primeiros
donos tinham um Leopardo trancado numa das casas escriturárias para adereçar as
suas sessões de orgias, com um motivo de excentricidade selvagem. No chão, as
tábuas podres de madeira já vacilam, as ventoinhas estão encrostadas em
ferrugem e o tecto mostra vestígios de água, após centenas infiltrações a
calcificar por todo o edifício. Junta-se, ainda, ao imaginário de quem lá
entra, o aroma de um cemitério que os moradores das imediações juram ter
existido por baixo das suas fundações. Os funcionários, que se mantêm a
trabalhar no cinema, para uma produtora de audiovisuais instalada no ultimo
andar do edifício, são a mais imediata representação da morte dos grandes
cinemas em Moçambique, recordando entre eles na língua local, uma vivência energética,
junto às bilheteiras, e aos projectores, de onde agora se limitam a afastar a
poeira.
Na fachada do edifício,
ainda se podem ver as letras em néon com o nome do cinema - “Scala”. Cada uma
quebrada por diferentes sinais da erosão afectiva pela qual passaram, decoram a
entrada como se o espaço continuasse habitado por milhares de espectadores. Como
este, existem muitos outros cinemas, espalhados pelas províncias de Moçambique,
no mesmo estado. Eles são um relíquia arquitectónica que se teme perder nas
mãos dos empresários ou num fogo acidental, mas, por algum motivo que me escapa
à percepção, talvez também por desconhecimento das leis que regulam o sector
cultural no país, não são considerados património do estado, podendo, de um dia
para o outro, simplesmente deixar de existir como um velho trapo que escapa
pela janela levado pela brisa quente do verão.